quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Comunidade mostra seu valor na indústria do carnaval


Festa do povo, o carnaval carioca de alguns tempos para cá vem ganhando cada vez mais glamour. Como um grande espetáculo, canais de televisão transmitem, para o mundo todo, famosos desfilando pela passarela do samba e rainhas de bateria com suas fantasias belíssimas. O que ninguém sabe ou vê, porém, é que por trás destas cortinas existem muitas pessoas essenciais para festa acontecer. Gente da comunidade, que sua a camisa e põe a mão na massa durante o ano. Afinal, quem empurraria os carros alegóricos? Quem faria as fantasias? Duas das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, Império Serrano e Portela, ambas de Madureira, sabem como ninguém o quanto é importante essa relação com os integrantes. Uma via de mão dupla, onde escola apóia e ganha o apoio da comunidade.
Presidente da verde e branco, Humberto Carneiro, reconhece que o laço é bastante estreito e que os moradores participam de quase todas as decisões da escola. Segundo ele, os desfiles não traduzem, na maioria das vezes, as raízes do grêmio. “Tudo o que fazemos aqui é com muito sacrifício e dedicação, pois pensamos na comunidade acima de tudo”, disse, quando perguntado se a participação de artistas melhora, de fato, a imagem da escola.


Jóia imperial

Rebaixada para o grupo de acesso este ano, a Império Serrano literalmente junta os cacos para dar a volta por cima em 2008. Para isso, tem a certeza que terá o apoio dos seus integrantes, que já se unem em uma corrente em todos os ensaios na quadra da escola. Fundada por Sebastião de Oliveira no morro da Serrinha, adjacente ao bairro de Madureira, a verde e branco sempre teve como principal característica a democracia. Walter Honorato, Diretor de carnaval da escola comenta o quanto a comunidade representa para a Império. “A comunidade aqui tem muita importância, pois a escola não tem patrono é uma escola democrática e que você pode encontrar pessoas da comunidade em cargos de gestão, de mando até nas lãs da comunidade.”
Sempre ligada ou integrada à comunidade, a Império desenvolve alguns projetos sociais e culturais aos mais carentes. Na própria Serrinha, por exemplo, existem aulas de percussão (bateria) e uma escola de jongo, que é uma dança africana e tradição dos membros mais antigos das escolas, aos jovens.
Funcionário do departamento de carnaval da verde e branco e morador da comunidade, Luciano Vargem, 42 anos, acredita que a Império ainda sobrevive graças a esse tipo de ação. Para ele, o legado de uma escola tem que ser muito maior do que apenas os desfiles para o grande público, que está lá ou assiste para apenas bater palmas, em Fevereiro. “A escola de samba participa das nossas vidas no lado social e profissional. Aprendi uma profissão no Império e segui os caminhos certos da vida, fugindo, por exemplo, da marginalidade”, revelou Luciano, emocionado.
Durante todo o ano a Império organiza festas em sua quadra onde a comunidade está sempre presente. A feijoada que acontece todo terceiro sábado de cada mês e é um desses eventos chegando a reunir seis mil pessoas. A chefe de cozinha da escola, Tia Neia como é conhecida na comunidade explica que nesses eventos se emociona muito,pois o trabalho é grande,que abre mão de algumas coisas em sua vida mas vale a pena. “É muito gratificante ver essa quadra cheia de gente e saber que vieram comer a sua comida. É lindo e vai ficar na história do samba. Viramos a noite aqui, fazendo a feijoada. Eu e as meninas da cozinha somos donas de casa que largam seus lares e parentes, isso é muito bom! Somo uma família. Pode vir quem quiser que as portas estão abertas. É muito bonito ver a comunidade dentro da escola de samba, aqui ou em qualquer outra”.
Não é só a comunidade que marca presença nos eventos. A fila enorme para comer a famosa comida imperiana trás pessoas de muitos bairros do Rio de Janeiro. Vilma Barbosa, 47 anos moradora do Rocha, diz que mesmo vindo de longe, compensa comer a feijoada. ”Vale muito a pena mesmo. Está muito calor hoje. Passei por engarrafamento, mas estou aqui. Essa feijoada é muito gostosa. Já é a terceira vez que venho”.
Sempre simpáticos, os imperianos tem muita garra e amam demais sua escola. É inevitável perceber o clima familiar e a felicidade refletida no rosto de cada uma das pessoas da comunidade. Isso vai desde o pequeno até o mais velho dento da quadra ou fora da quadra. Todos rigorosamente vestidos de verde e branco sejam em roupas ou em acessórios, eles enaltecem vitalmente a escola do coração. Dona Dalva Nogueira, chefe da Ala Comigo ninguém pode, já viveu muitos carnavais na Império. Ela ressalta o significado da escola e diz que a ver e branco merecia mais. “Império sempre fez bonitos carnavais. Criou muitas coisas dentro da história carnavalesca. O primeiro destaque feminino foi da Império dentre outras coisas.Acho que a Império tinha que ser destaque no Museu do samba”
O presidente da escola, Humberto Carneiro, admite a importância da integração comunidade/escola de samba. Segundo ele, não existe carnaval sem esse ingrediente. “Abracei a comunidade e algumas pessoas que estavam afastadas do convívio da escola. Tem uma frase que é de gente que não concorda com a participação da comunidade que sou contra. Dizem que quem cria raiz é batata. Pelo contrário, nosso objetivo é abraçar e respeitar a comunidade do Império Serrano”, afirmou, sem antes fazer uma promessa a todos os integrantes que prometem desfilar no próximo ano: “Temos um compromisso com a comunidade de voltarmos ao grupo especial no ano que vem”.

Nas asas da águia


Um pouco mais de 800 metros distante, a Portela, maior campeã do carnaval carioca com 21 títulos conquistados, também dá exemplo quando o assunto é integração com a comunidade. No complexo conhecido como Cidade do Samba, na zona portuária do Rio de Janeiro, a azul e branca lota seu barracão com funcionários moradores de Madureira, Oswaldo Cruz e adjacências. Pessoas que vivem o ano inteiro esperando essa época para ganhar um dinheirinho o mais.
Ciente desse movimento, o carnavalesco da escola, Cahê Rodrigues, mantém o otimismo de todos elevado ao afirmar que sempre se tem trabalho quando o assunto é carnaval. “A festa não pára. Termina um carnaval e começa outro para nós. Nesta época do ano, entre setembro e janeiro, chega-se a ter até 300 pessoas dentro do barracão. A adrenalina é muito grande e volume de trabalho também”, revelou Cahê, explicando ainda que o envolvimento entre escola e os integrantes é enorme. “Dentro da Portela tem famílias que se sustentam com o salário da escola. Famílias inteiras trabalhando aqui. A facilidade de conseguir trabalho neste período faz com que as pessoas se envolvam e ainda tem aquele lance de estar ajudando na preparação do carnaval”.
Escultor da escola, João Canuto Neto, 31 anos, na profissão desde os 16 dá sua opinião e conta as mudanças e benefícios que a indústria carnavalesca trouxe ao longo de sua carreira. “Hoje o carnaval é uma empresa para mim e para todos que trabalham com isso, pois nos ajuda muito e ganhamos bem. Já conquistei bens materiais como uma casa. Vale a pena trabalhar para escola de samba.”
Aderecista das fantasias da Portela para o desfile de 2008 na passarela do samba, Rogério Sampaio revela a importância que é as escolas de samba formarem os seus próprios profissionais. Segundo ele, qualquer pessoa consegue viver com a indústria do carnaval. “Trabalho durante todo o ano em um curso de aderecista que a escola de samba oferece a comunidade. Lá, sou um dos professores. Tudo que eu tenho saiu do carnaval. De verdade, sou enfermeiro, mas se fosse trabalhar em um hospital não ganharia nem metade que ganho aqui” admitiu.
Vale ressaltar que ambas as escolas possuem centro culturais à disposição da comunidade. O Centro Cultural Paulo da Portela, por exemplo, dá uma valiosa assistência aos que freqüentam a escola. O diretor de harmonia, Marcelo Jacob, 36 anos conta como ele assiste a esses projetos. “A Portela dá assistência em informática, educação, dança , incentiva a prática de esportes, cursos em geral e agora que está associada a FAETEC vai ficar bem melhor” Durante o ano, quando a preparação para o carnaval ainda não está acontecendo, tanto a Império quanto a Portela fazem de tudo para aproximar ainda mais e continuar criando um elo de reciprocidade com os seus integrantes.

4 comentários:

Falando de Vida disse...

Aê, Nick
Postou sua reportagem
Vai no meu blog tbm
Sua presença é obrigatória

Rafael Ramos disse...

Amiga!!!
Saudades
Dia 12 começa o curso
Bjs...

Rafael Ramos disse...

Quero ver quando você vai resolver ir no meu blog e deixar um comentário
Bjs...

Rafael Ramos disse...

Valeu Nick
Em breve teremos novidades
Bjs...